A maioria dos tribunais brasileiros encontra-se atualmente em uma fase intermediária na implementação de medidas de acessibilidade. Foi o que revelou o “Diagnóstico sobre acessibilidade e inclusão da pessoa com deficiência no Poder Judiciário”, realizado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).
Segundo evidenciou o estudo, os tribunais avaliados possuem estruturas físicas, tecnológicas e de serviços que atendem, em parte, às necessidades de pessoas com deficiência. No entanto, os desafios persistem, especialmente no que diz respeito ao orçamento, na gestão da acessibilidade e inclusão, na acessibilidade nos serviços judiciais, e na acessibilidade comunicacional, tecnológica e arquitetônica.
Esses e outros resultados do diagnóstico foram apresentados durante o Seminário de Pesquisas Empíricas aplicadas às Políticas Judiciárias, realizado no dia 19 de fevereiro, que mapeou e avaliou a gestão da acessibilidade e a inclusão em serviços utilizados por operadores do Direito e cidadãos com deficiência.
Para o conselheiro Pablo Coutinho Barreto, presidente do Comitê dos Direitos de Pessoas com Deficiência no Âmbito Judicial, o documento é uma informação qualificada sobre pessoas com deficiência (PcD). “Essa pesquisa teve como objetivo compreender de que forma a inclusão e a acessibilidade estão sendo implementadas no Judiciário. O diagnóstico nos proporcionará um insumo essencial para podermos delinear a forma como o Conselho Nacional de Justiça tem que caminhar daqui por diante. Sobretudo, identificar se tem algo que possamos corrigir ou ajustar nos nossos passos para conquistar novas metas”, afirmou.
Previsto na Resolução CNJ n. 401 de 2021, o diagnóstico foi elaborado a partir de entrevistas em profundidade, análise de sistemas e sites do Poder Judiciário e aplicação de questionários on-line. O levantamento contou com a participação de magistradas e magistrados, servidoras e servidores com deficiência, advogadas e advogados, defensoras e defensores públicos, membros do Ministério Público e cidadãs e cidadãos que acessaram a Justiça nos últimos três anos.
Nesse contexto, a pesquisa identificou progressos e lacunas nas áreas mencionadas e concluiu que, embora a maioria dos tribunais esteja em fase intermediária de implementação de medidas de acessibilidade, alguns desafios estruturais ainda persistem.
Como, por exemplo, o avanço na adaptação de rampas, banheiros e corrimãos, e a persistência nos problemas de sinalização tátil e sonora, especialmente em prédios antigos. Nesse sentido, cerca de 70% dos participantes (4,7 mil respondentes) consideraram que as rampas atendem aos requisitos de acessibilidade, enquanto 16% (pouco mais de mil participantes) apontaram inadequações nos banheiros adaptados.
Já em relação à acessibilidade nas áreas de circulação interna, os resultados indicam a necessidade de mais investimentos. Em aproximadamente 60% dos casos relatados, as sinalizações táteis em corredores são insuficientes. Além disso, quase 40% dos respondentes reportaram que as rampas internas não estão plenamente adequadas para garantir a acessibilidade.
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Fonte: Diagnóstico sobre Acessibilidade e Inclusão da Pessoa com Deficiência no Poder Judiciário
Comunicação para pessoas com deficiência
Entre os desafios enfrentados pelas pessoas com deficiência, está a comunicação. Nesse contexto, o diagnóstico avaliou 94 sites de tribunais e conselhos e apontou que 62,2% dos portais já estão conforme os padrões de acessibilidade, embora haja variações entre os diferentes ramos e tribunais. Problemas como falta de etiquetas em formulários e ausência de textos alternativos para imagens ainda comprometem a experiência de usuários com deficiência visual. Além disso, embora recursos como intérpretes de Libras e audiodescrição estejam disponíveis, sua eficácia ainda é limitada. O levantamento revelou ainda que 81% das unidades não possuem mecanismos de atendimento em Libras, e 42,3% das respostas indicaram a ausência de materiais impressos acessíveis.
Outros pontos evidenciados na pesquisa foram a falta de capacitação dos profissionais (apontada por 45% dos respondentes) e a resistência cultural e institucional (36%). Essas questões foram mencionadas como barreiras, demonstrando dificuldades na acessibilidade atitudinal — ou seja, na forma de tratar as pessoas com respeito e sem preconceitos, promovendo inclusão e igualdade.
Em contrapartida, o diagnóstico mostrou que 72,6% das unidades judiciárias adotam atendimento prioritário para pessoas com deficiência, enquanto mais de 4 mil (63,7%) permitem participação remota em audiências e procedimentos.
Diante dos desafios identificados, o diagnóstico apresenta um conjunto de recomendações estratégicas para fortalecer a inclusão e a acessibilidade no Poder Judiciário. Um dos principais caminhos apontados é garantir a participação efetiva das pessoas com deficiência no processo decisório, por meio da ampliação de conselhos consultivos e do aprimoramento dos canais de feedback.
As recomendações também enfatizam a importância da capacitação contínua e de ações de sensibilização. Assim como a implementação de programas para magistradas, magistrados, servidoras, servidores e demais profissionais do Judiciário, que promoverão maior interação e engajamento, além de incluir pessoas com deficiência nos corpos docentes, enriquecendo a capacitação com vivências e perspectivas práticas.
O diagnóstico propõe ainda a adoção de tecnologias assistivas e adaptações estruturais para garantir maior autonomia no uso dos serviços judiciais, como a adequação de mobiliários e espaços físicos dos tribunais, bem como a implementação de leitores de tela, ampliação de texto e outras ferramentas de comunicação acessível.
Para o presidente da Comissão de Sustentabilidade e Responsabilidade Social, conselheiro Guilherme Feliciano, o estudo permite ao CNJ avançar na busca por mais acessibilidade e mais inclusão no Poder Judiciário. “Quando pensamos em acessibilidade, temos a ideia de superação das diversas barreiras. Já o conceito de inclusão pressupõe um ambiente no qual as pessoas se sentem bem-vindas, integradas à instituição, política ou contexto. Em todo o Poder Judiciário, temos 79 magistradas e magistrados autodeclarados pessoas com deficiência. No caso das servidoras e dos servidores, esse número sobe para 4.317. Sabemos, portanto, quantos servidores precisam ser acolhidos com o máximo de eficiência”, afirmou.
Fonte: CNJ, com adaptações RF
Assessoria de Comunicação Social
Tribunal Regional Federal da 1ª Região